A pecuária industrial representa uma ameaça sistêmica à saúde pública global, funcionando como catalisador de crises sanitárias por diversos mecanismos: facilita o surgimento de pandemias zoonóticas, acelera a resistência antimicrobiana e aumenta doenças crônicas não transmissíveis. Estes impactos transcendem a esfera ambiental, constituindo um dos maiores desafios para a saúde humana no século XXI.
A indústria pecuária amplifica o risco de doenças zoonóticas e pandemias. Segundo a OMS, cerca de 60% dos patógenos humanos e 75% das doenças infecciosas emergentes, como Ebola e HIV, têm origem animal. Esta ameaça conecta-se à produção alimentar através da degradação ambiental. O PNUMA identifica a degradação da terra e exploração da vida selvagem como principais vetores de zoonoses. A pecuária lidera essa transformação ambiental: no Brasil, 90% da área desmatada na Amazônia nas últimas décadas converteu-se em pastagens. O desmatamento rompe barreiras ecológicas, aumentando o contato entre vida selvagem, gado e humanos, o que cria condições ideais para a transmissão interespécies de vírus, também conhecido como spillover.
Simultaneamente, a pecuária industrial compromete a eficácia dos medicamentos ao promover resistência antimicrobiana. O uso rotineiro de antibióticos em animais saudáveis (para estimular o crescimento e prevenir doenças em condições de superlotação) impulsiona esta crise. A FAO identifica o setor como “principal usuário de antimicrobianos” globalmente. Não por acaso, o uso de antibióticos na pecuária industrial é tão expressivo que 75% da produção mundial desses medicamentos é destinada a esse setor. As consequências são graves: cerca de 1,27 milhão de pessoas morrem anualmente devido a infecções resistentes a antibióticos. Projeções indicam que esse número pode chegar a 10 milhões até 2050.
O consumo de produtos animais também aumenta o risco de doenças crônicas não transmissíveis, principais causas de mortalidade global. A IARC, após revisar mais de 800 estudos, chegou a conclusões significativas: a carne processada (salsichas, presunto, bacon) foi classificada como carcinogênica para humanos. Já a carne vermelha (bovina, suína, cordeiro) foi classificada como provavelmente carcinogênica, associada a cânceres colorretal, pancreático e prostático.