A pegada de carbono de um alimento representa o total de gases de efeito estufa (GEE) emitidos durante todo seu ciclo de vida. A medição dessa pegada ocorre por meio da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), processo que avalia o impacto ambiental de um produto ou serviço desde a extração da matéria-prima até o descarte final. Essa análise abrange tanto as emissões diretas da produção e uso do produto quanto as indiretas da cadeia de suprimentos, como energia utilizada no transporte e na produção de matérias-primas.
Uma pesquisa recente da FGV indica que a pegada de carbono por quilo de carne bovina desossada, no Brasil, chega a 99 kgCO2e. Esse valor elevado deve-se a diversos fatores, como: fermentação entérica dos animais, manejo de dejetos, mudança do uso da terra, produção de ração animal e fertilizantes, atividades de transporte e processos industriais que ocorrem nos frigoríficos. Outro estudo revela que esse valor pode aumentar para 700 kgCO2e quando o gado é criado em áreas recentemente desmatadas. Para efeitos comparativos, a pegada de carbono do feijão, no Brasil, gira em torno de 0,3 kgCO2eq.
Não por acaso, estudos contextualizados ao cenário brasileiro identificaram que 86% da pegada de carbono dietética nacional deriva do consumo de produtos cárneos.
Complementarmente, uma pesquisa publicada no periódico Nature Food (2023) analisou a dieta de 55.000 indivíduos e concluiu que dietas veganas apresentam aproximadamente 25% do impacto em GEE comparativamente às dietas com elevado consumo de carne. Notavelmente, mesmo dietas veganas de maior impacto demonstraram sustentabilidade superior às dietas carnívoras de menor impacto, evidenciando que o consumo de alimentos de origem animal constitui o determinante primário na redução da pegada de carbono individual.
O acúmulo de GEE na atmosfera é a força motriz por trás do aquecimento global, intensificando fenômenos climáticos extremos. Essas mudanças não apenas ameaçam ecossistemas e a biodiversidade, mas também comprometem a própria segurança alimentar ao dificultar a produção agrícola em diversas regiões do mundo. Dessa forma, a redução da pegada de carbono alimentar, especialmente através da diminuição do consumo de carne, transcende a esfera individual e se torna uma estratégia coletiva indispensável para mitigar os impactos das mudanças climáticas, garantindo a sustentabilidade e a resiliência do nosso sistema alimentar e do planeta para as futuras gerações. O IPCC (2023) corrobora isso ao projetar que, globalmente, essa mudança poderia reduzir as emissões de GEE em 29%.