No Brasil, a pecuária é o principal vetor do desmatamento em diversos biomas como Amazônia e Cerrado, interferindo diretamente no ciclo hidrológico em escala continental. Esse processo desencadeia uma desestabilização climática que ameaça a segurança hídrica e a própria viabilidade da produção agrícola em vastas regiões do país. A remoção da cobertura florestal para a criação de pasto não é um ato isolado, mas sim o gatilho para uma cascata de impactos que se estendem por milhares de quilômetros.
Isso ocorre porque os ecossistemas florestais, em particular a Floresta Amazônica, desempenham um papel insubstituível na regulação do clima. Longe de ser um ator passivo, a floresta funciona como uma poderosa bomba de água, reciclando a umidade e influenciando os regimes de chuva em todo o continente. Não por acaso, cientistas referem-se à Floresta Amazônica como “oceano verde”. Estudos demonstram que uma única árvore com copa de 20 metros de diâmetro bombeia para a atmosfera mais de mil litros de água por dia através da evapotranspiração.
Em conjunto, estima-se que as 400 bilhões de árvores da Amazônia lancem na atmosfera cerca de 20 trilhões de litros de água diariamente, volume superior aos 17 trilhões de litros que o Rio Amazonas descarrega no Oceano Atlântico no mesmo período. Essa imensa capacidade de transferir umidade do solo para o ar mantém a atmosfera carregada de vapor d’água, alimentando o ciclo de chuvas que sustenta a própria floresta e ecossistemas distantes.
A conversão de florestas em pastagens é o principal mecanismo de interrupção deste ciclo vital. No Brasil, essa ligação é inequívoca: dados do MapBiomas revelam que 90% de toda a área desmatada na Amazônia nos últimos 40 anos foi convertida para a pecuária. Quando a floresta é removida, o processo de evapotranspiração diminui drasticamente. A ausência da cobertura vegetal e seus complexos sistemas radiculares reduz o teor de água no solo, a umidade atmosférica e a capacidade da paisagem de reter a chuva, que passa a escoar superficialmente em vez de infiltrar e reabastecer os aquíferos. O resultado direto é um clima local e regional cada vez mais quente e seco, aumentando a vulnerabilidade a incêndios e à degradação do solo.
O impacto mais significativo e de longo alcance dessa alteração é a perturbação dos chamados “rios voadores”. Este termo descreve as massas de ar úmido que são formadas sobre a bacia amazônica e transportadas pelos ventos para o interior do continente. Ao encontrarem a barreira da Cordilheira dos Andes, esses rios atmosféricos são desviados para as regiões Sul e Sudeste do Brasil.